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Qualquer pescador que pretenda obter sucesso em excursões por rios e mares,
deve conhecer intimamente as principais características dos peixes dignos de
seu interesse, como presas de valor desportivo. Além das peculiaridades
inerentes a cada espécie, compete ao pescador prático saber distinguir os
ambientes que freqüentam, os alimentos que preferem e os tipos de
equipamento mais indicados para sua captura.
Outro fator preponderante para se apanhar um peixe é o conhecimento de suas
capacidades sensoriais, tidas por pessoas menos observadoras como bastante
rudimentares. Contudo, apesar da fama de estúpidos que têm os peixes, eles
possuem sentidos bastante desenvolvidos, que lhes garantem a sobrevivência,
no perigoso habitat onde se desenrola sua existência.
Os órgãos dos sentidos dos peixes são aptos para receber estímulos físicos e
químicos do ambiente. As variações de temperatura, a fluidez e consistência
da água são percebidas através de receptores sensoriais, encontrados
isolados na pele, ou agrupados em uma série de canais, na cabeça e ao longo
dos flancos (linha lateral). As mudanças na intensidade da luz são
detectadas pela visão. Manifestações acústicas são percebidas pelo ouvido
interno e através da linha lateral. Os estímulos químicos são sentidos pelos
órgãos do gosto e do olfato.
A visão
Apesar da fama que têm de serem míopes e estúpidos, os peixes possuem
sentidos de audição, olfato, tato e paladar bastante desenvolvidos. Neles,
os olhos estão geralmente colocados na parte lateral da cabeça, dispondo de
campos visuais e movimentos independentes. Em algumas espécies abissais os
olhos se localizam no dorso, ou numa só porção lateral.
Possuindo um músculo retrator, que se insere diretamente sobre a lente e
puxa-a para trás e para frente, o olho do peixe capta imagens, que caem
inteiramente na lente, de formato esférico, dotado de alta densidade ótica.
A firmeza da lente impede os peixes de flexionarem a esfera e de alterarem
sua curvatura, para efeito de focalização, como ocorre normalmente com
outros vertebrados superiores. A distância entre a lente e a retina é
modificada pelo músculo retrator, característica que confere miopia à quase
todas as espécies.
Embora possam distinguir movimentos com grande facilidade, vêem os objetos
de forma imperfeita. As espécies que vivem na superfície são dotadas de
maior capacidade visual, tendo inclusive noção de cores. Mas são incapazes
de reconhecer a diferença entre uma mosca verdadeira e outra confeccionada
pelo pescador – originando-se desse fato o sucesso proporcionado pelas iscas
artificiais. A visão dos peixes não é igual a nossa. Parece que eles
percebem mais ou menos distintamente as cores, mas não distinguem bem os
contornos dos objetos e muito menos o relevo. Nós, quando fixamos a vista
sobre um objeto, recebemos nos olhos, duas imagens independentes, que se
conjugam, dando a impressão de relevo ou de três dimensões, com perspectiva,
portanto. Como em geral os peixes têm olhos dispostos em planos diferentes
e, quase sempre em posições opostas (um de cada lado do corpo), eles têm a
visão de apenas duas dimensões, isto é, apenas do plano, ao passo que
dominam um campo visual muito mais vasto.
Por esse motivo, quando se vai pescar, deve-se usar de preferência roupas de
cores neutras ou caqui, cor de terra ou preta, que se confundem com o
ambiente. Cores vivas, como o amarelo, vermelho, branco são facilmente
percebidas e há peixes ariscos como a piracanjuba, a piabanha, que se
afastam quando, de leve que seja, desconfiam de uma imagem estranha. O
movimento da imagem denuncia, facilmente aos peixes a presença do pescador.
A audição
Apesar de possuírem ouvidos, compostos de canais semicirculares, portadores
de células sensoriais, os peixes, ao que parece, não escutam como os outros
animais. A linha lateral é, em definitivo, um aparelho auditivo amplificado.
Em lugar de se limitar a uma orelha colocada na cabeça, este aparelho
estende-se sobre o tronco inteiro do indivíduo e instala-se sobre cada um de
seus flancos. Fica assim tal criatura excelentemente disposta para receber e
perceber as vibrações que atravessam a água. A multiplicidade dos tubos que
compõem tal aparelho, constitui uma série de pontos de escuta, totalizando
as respectivas sensações. Os peixes escutam por conseqüência, mas não
escutam como nós. Seus órgãos da linha lateral abrem-se de preferência aos
infra-sons, aos ultra-sons, que nós transformaríamos ou em tato grosseiro ou
em audição confusa.
Alguns possuem estruturas acessórias de audição. A vesícula gasosa ( também
chamada bexiga natatória), em peixes como carpas, unem-se ao ouvido interno
por uma cadeia de ossículos que transmitem, através da perlinfa e endolinfa,
as vibrações das ondas sonoras captadas por aquele órgão. Ao contrário do
que muitos pescadores pensam, os barulhos feitos à beira d’água,
propagando-se pelo meio líquido, alerta não somente peixes que se encontram
nas proximidades, como outros situados a maiores distâncias.
Principalmente nas pescarias embarcadas, as pancadas de remos e batidas de
pés, nos estrados dos botes, afugentam os peixes. Por essa razão os barcos
de alumínio são classificados como barulhentos pelos pescadores mais
exigentes. O uso de calçados com solas de borracha ou de corda é condição
imprescindível para eliminar os ruídos de passos nas embarcações.
Os norte americanos, sempre avançados na aceitação de notas técnicas de
pesca, estão adotando, para a eliminação dos barulhos em embarcações
metálicas, o revestimento de seus interiores com tapetes de fibra vegetal,
ou sintética. Segundo Bob Stearns, redator de náutica da revista Outdoor
Life, este material, acarpetando botes e lanchas de alumínio, “tem reduzido
dramaticamente o barulho”.O referido jornalista aconselha não só o
revestimento interno das embarcações, como também a aplicação de pedaços de
tapetes, fixados com cola de borracha, ao fundo das caixas de pesca, das
geladeiras e tanques de combustível, cujas superfícies , atritadas contra o
casco dos barcos, produzem ruídos que alertam ou afugentam os cardumes.
O olfato.
Registram-se grandes variações na morfologia dos órgãos olfatórios dos
peixes. Alguns, como os teleósteos (subclasse com o esqueleto ósseo),
possuem fossas nasais na região dorso-anterior da cabeça, cada qual dotada
de duas aberturas – uma anterior, de entrada e outra posterior, de saída
totalmente separada por uma ponte membrana. Outras, como os tubarões e
raias, têm o par de fossas nasais alojado no focinho e dividido, por uma
prega da epiderme, em uma entrada e uma saída de água.
O sentido do olfato serve aos peixes não só na busca de alimentos, como para
a orientação. Espécies que dependem exclusivamente do olfato para a
localização da comida, como os bagres e os tubarões, ficam impossibilitadas
de encontrar recursos de subsistência quando, durante experiências
realizadas, são tampadas suas narinas.
Os salmões, em suas longas viagens migratórias, se orientam pelo olfato.
Outros peixes, que costumam viver em cardumes, se servem desse sentido para
detectarem substâncias repelentes expelidas por companheiros perseguidos ou
feridos, debandando ao menor sinal do perigo percebido pelas fossas nasais.
Tato e paladar
A confusão de olfato com paladar, observado na maioria das espécies
ictiológicas fizeram com que L. Roule escrevesse: ”Os peixes se dirigem, na
água, segundo as emanações gustativas, que este meio lhes traz”. Eles
percebem, de longe, e as apreciam como qualidade e quantidade. Um cão de
caça percebe a próxima presa pelo odor, fareja e segue a pista. Da mesma
forma o peixe percebe, à distância, os sabores transmitidos pela água.
Os sentidos cutâneos e gustatórios também se associam em muitos tipos de
peixes. Os bagres, já citados, possuem botões gustativos distribuídos pela
epiderme, pela boca, na região braquial, nos lábios e na faringe. Esses
botões são formados por células de sustentação e células sensoriais
neuro-epiteliais. Segundo observações de ictiologistas, o tato e o gosto
parecem trabalhar em conjunto, quer na procura do alimento, quer na
percepção de substâncias perigosas. Está provado que certos peixes, como a
carpa, experimentam sensações de gosto semelhantes às dos mamíferos,
distinguindo o salgado do doce ao amargo do ácido.
Realizando experiências com repelentes para mosquitos, cujas fórmulas
eficientes da atualidade ainda não existiam nas décadas de 30 e 40, Fausto
Lex alcançou inesperado resultado:”Na aplicação de drogas, para evitar o
incômodo dos mosquitos, é preciso se levar em conta que algumas delas não só
espantam, de fato, os mosquitos, mas também os peixes. Explico-me. Nas
tentativas que fiz para encontrar alguma coisa que desse resultado, uma vez
prendi ao chapéu e às mangas do casaco alguns pachozinhos de algodão
embebidos em essência de quenopódio. Pois bem, os mosquitos foram
afugentados com o cheiro, mas, ficando eu com os dedos um pouco impregnados
com a droga, esta comunicou o característico cheiro à isca e nem um peixe,
sequer, beliscou-a, enquanto que outros companheiros, nas proximidades, iam
pescando regularmente bons peixes. E não é para se admirar, pois os peixes
enquanto têm má vista, possuem excelente audição e olfato. Já havia
aprendido, em menino, que alguns pescadores práticos misturam aniz ao angu,
para a isca atrair os peixes”.
A linha lateral
Sistema sensorial altamente desenvolvido e encontrado apenas nos peixes e na
fase larval dos anfíbios a linha lateral consiste numa série de
células-sensoriais, denominadas “neuromast”, dispostas ao longo do corpo e,
que formam uma linha visível sobre os costados do peixe, possuindo
ramificações sobre a cabeça. Em muitas espécies a linha lateral é
constituída por células sensoriais, agrupadas em uma série de canais,
fechadas embaixo das escamas e que, em determinados intervalos, se abrem
para o exterior.
Conforme descrição feita pela Dra Heloisa Maria Godinho, do Instituto de
Pesca de São Paulo, “os neuromast” são formados por um feixe de células
alongadas e ciliadas na extremidade. O processo ciliar inclui uma massa de
material gelatinoso denominado cúpula, secretado pelas células sensoriais. A
cúpula movimenta-se livremente na água circundante. Desta maneira, essas
estruturas permitem a percepção de qualquer movimento na água e a
identificação de presas e inimigos, de qualquer obstrução na sua direção e
de movimentos e pressão das correntes, o que é fundamental para a locomoção.
Experiências realizadas com diversas espécies de peixes demonstram que, na
linha lateral reside o sentido de direção, o qual lhes permite conhecer a
origem das ondas de choque, produzidas no interior das águas por outros
peixes ou animais predadores. Além disso, a referida linha age como uma
espécie de radar, registrando o eco dos próprios movimentos do peixe e
orientando-o quanto à localização de objetos inanimados. Pela intensidade da
variação desse eco, os peixes distinguem as características dos objetos com
os quais se defrontam – função fundamental para sua alimentação.
Na expressão do naturalista argentino Carlos Henrique Cruz, a “linha lateral
é uma espécie de memória do peixe, onde se registram, certamente por
herança, os ecos e vibrações perigosas”. Origina-se daí o fato de que os
peixes não sentem medo dos caçadores submarinos, que emitem vibrações
desconhecidas. Ao se fazerem caçadas intensivas, em determinada zona, os
peixes acabam por intuir o perigo, passando a fugir dos aquanautas.
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